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O Efeito Ghost em Fachadas de Light Steel Frame

efeito ghost em fachadas Light Steel Frame

O Efeito ghost ou tracking, também conhecido como efeito “fantasma”, pode ser considerado como uma das manifestações patológicas mais comuns dos sistemas construtivos Light Steel Frame e Wood Frame, porém não é uma ocorrência exclusiva dos mesmos, podendo surgir também em edificações de concreto e alvenaria.

O sistema Light Steel Frame, apesar de apresentar amplo crescimento no Brasil e ser regulamentado pela norma ABNT NBR 16970 (Light Steel Framing – Sistemas construtivos estruturados em perfis leves de aço formados a frio, com fechamentos em chapas delgadas), ainda é um sistema desconhecido por grande parte dos setores e profissionais da construção civil.

Com isso, ainda existe muito preconceito e desinformação, principalmente sobre as patologias das edificações.  Por isso é importante o estudo dos sistemas e de seus componentes para a correta execução e desempenho do projeto e da obra. 

Causas do Efeito Ghost

O efeito ghost é um fenômeno caracterizado principalmente pelo surgimento de manchas superficiais na pintura ou acabamento, mapeando a estrutura da edificação na fachada ou paredes internas. No Light Steel Frame, por exemplo, o efeito ghost evidencia os perfis da estrutura (perfis de aço) da parede. Já na alvenaria, o efeito ghost transparece as juntas de argamassa entre os blocos cerâmicos, vigas e pilares de concreto para a superfície da parede ou fachada.

Efeito ghost em parede de Light Steel Frame

Efeito ghost em edifício de alvenaria

Segundo a ASHRAE (American Society of Heating, Refrigerating and Air-Conditioning Engineers), associação americana que realiza pesquisas e estudos relacionados à área de desempenho térmico, as principais causas desta anomalia estão relacionadas à: pontes térmicas, transmitância térmica e inércia térmica das paredes, fluxo de ar interno das paredes, condensação, permeância ao vapor e acúmulo de partículas.

Pontes térmicas

As pontes térmicas ocorrem quando há transmissão de calor pelos elementos construtivos que possuem alta condutividade térmica para a outra face da parede, causando uma variação de temperatura entre as camadas. Com a diferença de temperatura, ocorre a condensação da umidade nos locais mais frios, causando a marcação dos perfis (áreas mais frias).

Em sistemas de fachadas onde não há um isolamento térmico contínuo, são maiores as chances dessa situação ocorrer. Além disso, as pontes térmicas geram maior condensação das paredes e perda de eficiência energética.

Para evitar o surgimento das pontes térmicas, algumas medidas podem ser observadas já na fase preliminar do projeto, com o estudo bioclimático e análise da ação solar nas fachadas. Fachadas com maior ação solar são mais propensas a apresentar essa situação.

A utilização de isolamentos contínuos, como o sistema EIFS, bloqueiam o fluxo de calor nos materiais com maior condução, como os perfis e fixadores. Em situações onde o isolamento contínuo não é possível, outras técnicas podem ser adotadas como o uso de fitas isolantes nos perfis, para redução da transmissão do calor, ou utilização de elementos menos condutores de calor nos fixadores, como plásticos ou similares.

Ponte térmica em parede de Light Steel Frame

Transmitância térmica e inércia térmica das paredes

Segundo a norma ABNT NBR 15220 (Desempenho térmico de edificações – Parte 3: Zoneamento bioclimático por desempenho), a transmitância térmica (U) é a “quantidade de fluxo de calor transmitido entre uma face a outra da parede”, sendo que quanto maior o valor de U, maior a troca térmica e maior a variação da temperatura superficial.

Já a inércia térmica, ainda segundo a ABNT NBR 15220, é a capacidade do elemento em armazenar calor e liberar de forma controlada, o que influencia nas oscilações de temperatura nos ambientes durante o dia. A inércia é variável e depende das características físico-mecânicas dos elementos como massa específica, calor específico e espessura.

Em resumo, paredes com maior variação térmica em suas faces favorecem a formação de condensação e consequentemente, o surgimento do efeito ghost, mapeando a estrutura.

Paredes de Light Steel Frame, normalmente compostas por chapa cimentícia, lã de vidro e chapa de gesso acartonado, apresentam uma menor massa específica e, a depender das condições climáticas do ambiente, podem ser mais suscetíveis à esta patologia.

O uso de sistemas de revestimento contínuo como o EIFS e a utilização de materiais com baixa condução térmica, sistemas de fachadas ventiladas e com maior permeância ao vapor ajudam reduzir estes fatores, porém é importante sempre o estudo do bioclima da região para entender as características climáticas de cada área.

Revestimento tipo EIFS

Fluxo de ar interno em paredes com cavidades 

Segundo a ASHRAE (American Society of Heating, Refrigerating and Air Conditioning Engineers), paredes com cavidades e vazios internos, como as paredes de Light Steel Frame, podem apresentar fluxo de ar interno quando algumas medidas não são adotadas, como a vedação total de juntas e aberturas bem como a ausência do uso de membranas de barreira de vapor e de ar.

Em resumo, com o fluxo de ar dentro da parede, há maior resfriamento das superfícies em áreas maiores, o que aumenta a chance de condensação de umidade e consequentemente, o efeito de marcação dos perfis.

A correção passa pelas medidas abordadas anteriormente. O uso de revestimentos contínuos como EIFS irão neutralizar o surgimento de pontes térmicas, diminuindo também a variação térmica entre as camadas das paredes.

Comportamento do ar dentro da cavidade das paredes

Condensação e permeância ao vapor dos materiais

O fator umidade é a principal causa do surgimento do efeito ghost e, como citado nos tópicos anteriores, está relacionado com as demais causas.

A água irá mudar do estado de vapor para o estado líquido quando encontrar uma superfície mais fria, causando a condensação. Nas paredes de Light Steel Frame, o aço torna-se a área mais fria e suscetível à esse tipo de ocorrência, gerando o mapeamento dos elementos.

Esta situação é observada, a depender do bioclima da região, no horário da manhã, com a umidade posteriormente se dispersando no transcorrer do dia conforme o aquecimento da superfície. Ressalta-se que a médio e longo prazo, com o acúmulo constante de água, o aço poderá sofrer com corrosão e posterior deterioração.

Efeito ghost observado no período da manhã

Segundo alguns estudos da ASHRAE e da BSC (Building Science Corporation), materiais com maiores propriedades higroscópicas e mais porosos tendem a apresentar mais situações de mapeamento devido à sua capacidade de absorção de água e maior condutividade térmica.

Essa situação é observada em paredes de alvenaria onde a condensação acumula-se principalmente nas áreas de vigas e pilares de concreto, bem como na argamassa de assentamento a qual, combinando as propriedades de condução térmica + absorção de água + porosidade, tende a causar maior mapeamento.

Dentre as formas existentes de evitar a condensação dentro das paredes de Light Steel Frame ou que possuem cavidades, é importante observar o gerenciamento de umidade de modo a transportá-la para fora dos ambientes, realizando impermeabilização correta com materiais apropriados para cada área.

Além disso, o uso de materiais com permeância ao vapor e instalação de membranas hidrófugas irão auxiliar nesse gerenciamento, tornando mais estanque o invólucro.

Também é importante a utilização de tintas e acabamentos com propriedades de permeância ao vapor. Assim como citado nos tópicos anteriores, é importante observar o bioclima da região, pois as áreas com elevada umidade e grande diferenciação térmica são as que apresentam maiores chances de ocorrer o efeito ghost nas edificações.

Acúmulo de partículas finas

Com a condensação superficial das paredes, a película de água que se forma permite a aderência de partículas dispersas no ambiente. Essas partículas podem ser oriundas de diversos locais: sujeira do ambiente, poeira, fuligem, poluição, compostos orgânicos presentes principalmente em áreas de mata, sais e maresia, entre outros. Com o surgimento da película e água e acúmulo das partículas, aumenta-se ainda mais a percepção dos elementos dentro das paredes.

Em fachadas, o uso de pinturas hidrofóbicas que repelem umidade e o uso de tintas com base mineral, que retém menos umidade, auxiliam na redução e neutralização do acúmulo das partículas finas e sujeira. Além das recomendações já citadas anteriormente relacionadas principalmente à ponte térmica e condensação.

Outro fator importante é realizar a manutenção periódica e preventiva da parede, previstas em normas como a ABNT 15575 (Edificações habitacionais – Desempenho) e ABNT NBR 5674 (Manutenção de edificações — Requisitos para o sistema de gestão de manutenção).

Em fachadas, a limpeza e repintura devem ser realizadas em um período de 3 a 5 anos ou conforme recomendações do fabricante do acabamento utilizado.

Anomalia em fachada de edifício na cidade Curitiba-PR causado por acúmulo de partículas, gerando efeito ghost em diversas áreas

Conclusão

Como analisado, o efeito ghost pode ser um fenômeno pouco estudado no país, porém há uma grande bibliografia técnico-científica publicada em outros países onde as edificações apresentam as mesmas patologias, demonstrando que qualquer sistema construtivo não está livre de ocorrência de anomalias.

Por isso, no que diz respeito ao desempenho térmico e tudo o que é relacionado a ele, é importante que haja um estudo aprofundado do bioclima da região durante a fase de projeto e alinhamento das informações juntamente com a indústria, buscando sempre obter o melhor custo-benefício e desempenho para as edificações.

Por

Eng. Luan Banruque – Departamento Técnico DECORLIT
CREA PR- 222621/D